
No armáriO

Sal e pimenta
4/06/2024
Sal e pimenta. A associação é intemporal, mas, nos cabelos (das mulheres) as opiniões dividem-se… polarizam-se mesmo. Num lado os argumentos revolucionários, feministas, anti objetificação, no outro, os da velhice ou desmazelo.
Comecei a ter cabelos brancos com 25 anos. Eram poucos, por isso, fui tirando um a um, até ao momento em que, pela quantidade, isso já não era possível. Cerca dos 30 anos, após alguns episódios de coloração desagradáveis, no cabeleireiro, onde não respeitaram a minha vontade quanto ao tom, e, em casa, com reações alérgicas a alguns produtos, optei por usar uma coloração à base de hena. A solução resultou durante bastante tempo. Era quase imperceptível, para a maioria das pessoas, que eu pintava o cabelo, e era exatamente esse o meu objetivo. Sempre gostei de ter um aspeto o mais natural possível, com baixa manutenção. No entanto, em 2018, 15 anos após esta decisão, o meu grau de satisfação não era o mesmo. O intervalo entre cada coloração tinha diminuído muito, para três semanas, mas passada uma semana já se notavam as raízes, porque já tinha uma grande quantidade de cabelos brancos. Aquela cor que outrora passara despercebida, agora parecia bastante artificial e “dura” para mim, porque não é só a cor do cabelo que muda, a pigmentação da pele também. Para além do efeito estético não me agradar, o cabelo não estava saudável, apesar de sempre ter mantido muitos cuidados de hidratação e nutrição. Nessa altura comecei a procurar soluções e deparei-me com algumas páginas de IG de mulheres que assumiam os seus grisalhos. Mulheres bonitas, sensuais e interessantes. Ponderei algum tempo, deixando crescer esta ideia. Em tudo me identificava com ela. O cabelo ficaria mais saudável, a manutenção seria mais fácil, e gastaria menos dinheiro.
A fase de transição não foi fácil. As pontas do cabelo foram oxidando, os comprimentos mantiveram o tom castanho e a zona mais perto da raíz, que só tinha sido colorada na última vez, foi perdendo a cor e ficando rosada… e tinha ainda as raízes a crescer de um prateado brilhante… uma “salada” de cores, que eu encobri durante alguns meses com boinas. Mas tinha um plano! Aliás, dois. O plano A consistia em cortar o cabelo pintado, de forma a ficar apenas com o cabelo natural, mas estávamos em Fevereiro, com bastante frio, e não suportei a ideia de um bob tão radical. Então, o plano B revelou-se uma melhor opção, fazendo madeixas, na parte pintada do cabelo, que imitassem o padrão dos meus cabelos naturais. Passei o dia no cabeleireiro e tive que manter bastante firmeza, porque mesmo os profissionais por vezes dizem coisas como “os cabelos grisalhos só ficam bonitos em cabelos lisos”, ou “não deve deixar de pintar porque o cabelo grisalho é mais seco” (E é a pintura que vai hidratá-lo e nutri-lo?!). O trabalho executado, ainda que bastante mais dispendioso do que um corte, foi fabuloso, e tornou muito mais fácil o restante percurso. Foram feitas madeixas de castanho muito escuro, e outras de descoloração. Estas últimas deixaram o cabelo muito seco, produzindo uma sensação desagradável ao lavar, que eu nunca tinha sentido. Mas valeu todo o esforço. E, ao longo do tempo, no meu caso mais demorado por ter o cabelo encaracolado, fui cortando e libertando-me de todas as partes pintadas e descoloradas..
Dentro dos cabelos grisalhos, existem também muitas cores, que são as cores dos pigmentos de cada um, e que estão presentes nos cabelos, pelos, íris e pele. Por isso, o grisalho de cada pessoa, vai adequar-se perfeitamente ao seu tom. Há tons mais quentes e mais frios, mais opacos e mais luminosos. No meu caso, que de acordo com o Método Sazonal Expandido de coloração pessoal, sou um Inverno frio, o meu grisalho é composto de prateado e cor de chumbo com bastante brilho.
Foi bonita a descoberta do meu cabelo natural. Ao longo do tempo fui recebendo muitos elogios ao meu cabelo. Há sempre quem diga “fica-te bem a ti”, “és a única pessoa que eu gosto de ver de cabelo grisalho”, mas penso que isto é apenas o efeito da pressão social do padrão dominante. É mais fácil fazer como a maioria e não arriscar. Existe uma pressão muito grande em parecer mais jovem, especialmente para as mulheres. Mas não é só o cabelo que “envelhece”, há uma série de alterações, quase imperceptíveis, que contribuem para isso, como o aumento de peso, as alterações na pele, seja na firmeza ou na pigmentação, a cor dos olhos muda, a dos pelos também. Se a pessoa cuidar do seu cabelo, escolher um corte que a favoreça, e se cuidar igualmente do seu interior e do seu exterior, poderá não parecer mais nova, mas certamente não vai parecer descuidada, nem desinteressante, nem mais velha do que a sua idade só por causa do cabelo. No fundo, é só mais uma cor. No entanto, não foi só a cor que mudou, foi também o nível de contraste, no meu caso baixando-o, já que tinha o cabelo castanho e pele muito branca. Se a pele for mais escura, o nível de contraste vai aumentar, e nos casos de pele e cabelo claros vai manter-se, mudando apenas o tom. Poderemos sentir necessidade de compensar estas alterações, que podem deixar-nos mais esbatidas, ou mais contrastadas, com a maquilhagem e acessórios.
Para quem queira deixar de pintar o cabelo, existem várias opções no mercado para lidar com o processo de transição. Corte, coloração, acessórios. E há quem deixe apenas o cabelo crescer. Acima de tudo deve ouvir-se a si própria e não se deixar influenciar por outras vozes. Porque, no final do dia, somos nós que vivemos connosco. Todas as opções (pintar ou não o cabelo) são válidas, mas para quem quer assumir o seu cabelo natural, existem várias ideias nas redes sociais. Inspire-se!